24 de fevereiro de 2015

Culinária Missioneira

A gastronomia missioneira teve seu início com os índios guarani. Com a chegada dos jesuítas, começaram a haver as primeiras de outras tantas transformações feitas com o progressivo contato com as diferentes etnias. 



Guaranis

Milho, mandioca, batata doce, feijão, abóboras e morangas, frutas silvestres, peixes e aves faziam parte da comida guarani. Tais produtos ainda hoje permanecem na mesa missioneira. O uso da erva-mate na forma de chimarrão, característica da cultura gaúcha, teve origem com o povo guarani. 



Espanhóis
Com a chegada dos jesuítas veio o cultivo das videiras, a elaboração do vinho, introdução do uso do sal na cozinha, o cultivo de pomares e hortas. São eles os primeiros a fazerem o pão (o corpo de Cristo), usado nas cerimônias religiosas. 



Portugueses

Deles foram herdados a cana-de-açúcar e seus derivados; cachaça, melado, açúcar, rapadura, produtos que hoje são a identidade econômica de alguns municípios da região.



Alemães

Trouxeram o uso da carne suína, picles, chucrute e outras conservas. Todavia, a maior influência germânica está nas cucas, chocolates, bolachas e tortas.



Italianos

São hábitos herdados dos italianos o consumo e a fabricação de sorvetes, as massas com suas variedades de formas, receitas e preparos e o consumo da carne de galinha.



Poloneses

O consumo de pato e o pirogue, um pastel assado recheado com nata são símbolos da rica mesa dos descendentes de poloneses na região.



Diversos projetos vêm valorizando progressivamente a culinária regional como manifestação cultural missioneira. Pode-se citar o Degusta Missões, Cidade das Tortas e o Festival da Cozinha Missioneira.


Na Pousada das Missões, conheça a culinária local no Bistrô Tembiú e no café-da-manhã.





Missões Jesuíticas e pensadores

Antes da expulsão dos jesuítas, diversas apreciações favoráveis ao seu trabalho foram publicadas por influentes autores europeus, como Montesquieu, que disse ser "uma glória para a Companhia de Jesus ter mostrado pela primeira vez ao mundo como é possível a união entre religião e humanidade", e, em termos semelhantes, d'Alembert louvou seu trabalho dizendo que "mediante a religião alcançaram os jesuítas no Paraguai uma autoridade moral apoiada puramente em sua arte de convencer e em seu modo suave de governo". Até o próprio Voltaire, que era um dos grandes inimigos da Companhia, os comparou a verdadeiros soberanos, legisladores e pontífices. Disse ele: "pareciam um triunfo da humanidade". 


Com suas falhas e contradições internas, trazidas à luz abundantemente pela pesquisa moderna, mas principalmente por suas conquistas positivas, as Missões jesuíticas exerceram um impacto profundo na vida das Américas. 

Para Aguirre o caráter revolucionário das reduções jesuíticas deriva "da premissa que lhes serve de ponto de partida, premissa que implica um expresso reconhecimento dos vínculos que costumam ligar as injustiças sociais com o atraso geral das sociedades. Por isso o sistema econômico missioneiro jesuíta se encaminha, desde o princípio, para conseguir o desenvolvimento econômico dos povos aborígines, para organizar uma ordem social e produtiva que permita aos indígenas americanos romperem as barreiras da miséria e terem uma alternativa distinta daquela que era se submeter à economia da encomienda, da mita e do latifúndio colonial. Os jesuítas não definiram o problema da justiça no plano jurídico, mas se propuseram a realizá-la no âmbito de um sistema econômico e social, onde a riqueza se acomodava às pautas de uma filosofia inspirada na noção cristã de igualdade entre todos os homens...".

Para Wolfgang Reinhard, por mais controversos que tenham sido os intentos dos jesuítas de adaptar a mensagem cristã às concepções autóctones e de promover uma mudança cultural dirigida, a empresa missioneira foi a melhor alternativa de que a América dispôs para levar adiante uma colonização que era, sob todos os aspectos, inevitável e que em outras esferas se revelou brutal, e por isso mesmo continuam a ter um apelo para o mundo moderno, onde a problemática integração dos povos indígenas remanescentes com as culturas de entorno ainda não encontrou soluções satisfatórias, uma opinião que era compartilhada com Darcy Ribeiro.

Unindo uma diligência evangelizadora intrépida com uma base cultural de alto gabarito, uma praticidade única na lida com os problemas que enfrentaram com um pensamento econômico, político e social arrojado e de amplo horizonte, sua atuação foi decisiva na formação da civilização americana moderna, e o estudo do seu exemplo de desenvolvimento auto-sustentado, onde o objetivo primário era o bem-estar e harmonia das populações através do estabelecimento de um modelo de vida sadia, significativa, solidária e justa para todos, pode ser de alguma forma ainda útil para a sociedade moderna, num continente que ainda sofre com as desigualdades sociais e onde os índios sobreviventes permanecem em muito marginalizados e despossuídos. 

Adicionalmente, as Missões são vistas também como parte integrante das identidades nacionais nos países americanos, e a importância do projeto jesuíta nas Américas é reforçada pelo fato de a UNESCO ter declarado como Patrimônio Mundial um significativo grupo de monumentos missioneiros - seis na Bolívia, cinco na Argentina, dois no Paraguai e um no Brasil.

Conheça os 30 povos das Missões:
Argentina
Nuestra Señora de Loreto (1610)
Concepción de la Sierra (1619)
Corpus (1622)
Santa María la Mayor (1626)
Yapeyú (1627)
San Javier (1629)
La Cruz (1630)
San Carlos (1631)
San Ignacio Miní (1632)
Santo Tomé (1632)
Nuestra Señora de Santa Ana (1633)
Candelaria (1637-1665)
Apóstoles (1638)
San José (1638-1660)
Mártires (1639)


Brasil
São Francisco de Borja (1682)
São Luiz Gonzaga (1687)
São Miguel Arcanjo (1687)
São Nicolau (1687)
São Lourenço Mártir (1690)
São João Batista (1697)
Santo Ângelo Custódio (1706-1707)


Paraguai
San Ignacio Guazú (1609)
Encarnación de Itapua (1615)
San Cosme y Damián (1632)
Santa María de Fe (1647)
Santiago (1651-1669)
Jesús de Tavarangue (1685)
Santa Rosa de Lima (1698)
La Santísima Trinidad de Paraná (1706) 


2 de fevereiro de 2015

Semana dos 259 anos da morte de Sepé Tiaraju

Para toda a eternidade,
volta a lenda campeira,
lunar brilhando na testa,
para guiar as consciências,
cada vez, que nesta terra
se luta por liberdade.
ALCY JOSÉ DE VARGAS CHEUICHE - Sepé Tiaraju
Em 07 de fevereiro de 1756 os exércitos espanhóis e portugueses se uniram para massacrar os povos indígenas que lutavam na defesa de seus territórios. Numa dessas batalhas, foram mortos mais de 1500 guerreiros guaranis e Sepé Tiaraju foi assassinado. 

No entanto, a luta de Sepé Tiaraju e de seus companheiros, que aconteceu em nossa região há 259 anos, continua até hoje. Os povos indígenas e quilombolas, como naquele período, lutam contra as injustiças, a discriminação e pelo direito de viverem em seus territórios.

No ano de 2006, entre os dias 04 e 07 de fevereiro, foi realizado um grande evento para homenagear e celebrar os 250 anos de morte de Sepé Tiaraju. Desde então, o Povo Guarani organiza em nossa cidade, anualmente, um encontro de representantes de comunidades indígenas para rememorar a história de luta dos povos indígenas, bem como para marcar a data de 07 de fevereiro como dia de celebração, articulação e mobilização da etnia em defesa da vida. 

Neste ano de 2015, a Prefeitura Municipal de São Gabriel, juntamente com lideranças guaranis e entidades ligadas à defesa dos direitos indígenas,está organizando uma série de atividades para resgatar as lutas indígenas e mobilizar a nossa comunidade em favor disso!


PROGRAMAÇÃO:


SEGUNDA-FEIRA - 02/02 
20h – Abertura da exposição sobre Sepé Tiaraju no Museu Nossa Senhora do Rosário Bom Fim. 


QUINTA-FEIRA - 05/02 
8h - 12h – Recepção aos índios e à equipe da Bicicletada no Parque Tradicionalista Rincão das Carretas.
12h - Almoço de confraternização organizado pelos indígenas com a participação de autoridades (Local: Parque Tradicionalista Rincão das Carretas).
15h – I Reunião interna dos índios (Local: Parque Tradicionalista Rincão das Carretas).
19h30 - Apresentação teatral da equipe da Bicicletada em frente ao Museu Nossa Senhora do Rosário Bom Fim.


SEXTA-FEIRA - 06/02 
9h – II Reunião interna dos índios (Local: Parque Tradicionalista Rincão das Carretas).
16h - Bicicletada nas principais ruas da cidade, com paradas na Praça Dr. Fernando Abbott, Praça Camilo Mércio e Praça Tunuca Silveira.
18h30 – Jogo de futebol no Estádio Municipal (atividade que agregará governo, CIMI e equipe da Bicicletada). 21h - Palestra no Parque Tradicionalista Rincão das Carretas com José Roberto Oliveira e com lideranças guaranis.


SÁBADO - 07/02 
6h - Deslocamento dos índios até a Coxilha (celebração de ritual indígena) 9h30 - Missa da Terra Sem Males, na Chácara Juca Tigre.
11h30 (ou assim que terminar a Missa) - Inauguração da Trilha Ecológica "Pelos Caminhos de Sepé", na Chácara Juca Tigre.
12h30 - Almoço de confraternização organizado pelos indígenas com a participação de autoridades (Local: Parque Tradicionalista Rincão das Carretas).
16h - Retorno à Chácara Juca Tigre, para apresentações de corais indígenas e outras atrações culturais.
19h - Inauguração da Estátua em concreto aramado de Sepé Tiaraju e encerramento das atividades em sua homenagem na Chácara Juca Tigre.


Sepé Tiaraju

No dia 7 de fevereiro de 2015, completam-se 259 anos da morte de Sepé Tiaraju, símbolo da resistência guarani.


Nos últimos anos das Missões Guaranis, entre a morte de Sepé Tiaraju, em 1756, e a expulsão de todos os jesuítas da América do Sul, no ano de 1768, Voltaire pronunciou sua famosa frase: “A experiência cristã das Missões Guaranis representa um verdadeiro triunfo da humanidade”. No ano de 1979, mais de dois séculos depois, a UNESCO, organismo das Nações Unidas para Educação e Cultura, tombou as Ruínas de São Miguel Arcanjo como Patrimônio da Humanidade. Nos Sete Povos das Missões, no Rio Grande do Sul, e nos 26 que existiram em território hoje da Argentina e Paraguai, a paz resultava do trabalho comunitário e cooperativo, cujos frutos eram divididos entre todos os habitantes. Não havia convivência da riqueza com a miséria. Guarani, em seu próprio idioma, significa guerreiro. Esses guerreiros, homens e mulheres, endereçaram suas energias para tarefas pacíficas, chegando ao ponto de imprimir livros, fundir sinos de bronze, fabricar violinos e compor música para tocá-los. 

José Tiaraju, mais conhecido como Sepé, o “Facho de Luz”, era corregedor da Redução de São Miguel, ou seja, prefeito da cidade, eleito pelos concidadãos índios guaranis, quando da assinatura do Tratado Madri, em 1750. Por esse tratado, os reis de Portugal e Espanha trocavam os Sete Povos das Missões pela Colônia do Sacramento, obrigando cerca de 50 mil índios cristãos a abandonarem suas cidades, igrejas, lavouras, fazendas, onde criavam dois milhões de cabeças de gado e, principalmente, a abandonarem a terra de seus ancestrais. Insurgindo-se contra esse tratado espúrio, Sepé Tiaraju liderou a resistência dos índios guaranis, pronunciando a famosa frase, decantada no Rio Grande do Sul, em prosa e verso: “Esta terra tem dono”. 

Ao final da luta, Sepé Tiaraju tombou em combate no dia 7 de fevereiro de 1756, enfrentando tropas portuguesas e espanholas no local chamado Batovi, hoje cidade de São Gabriel. Três dias depois, no dia 10 de fevereiro, mil e quinhentos índios foram trucidados na batalha do Caiboaté, não havendo oficialmente nenhuma baixa nos exércitos invasores. Poucos meses depois, nada mais existia do sonho missioneiro de uma sociedade cristã, mas o povo do Rio Grande do Sul, por sua própria conta, canonizou o herói guarani missioneiro como São Sepé, nome dado ao arroio, à margem do qual passou sua última noite, e à atual cidade de São Sepé. 

O dia 7 de fevereiro marca a morte de Sepé Tiaraju. A lembrança do herói missioneiro, que morreu na luta contra os dois maiores impérios da época e na defesa da terra e de seu povo, reascende a mística da luta popular. O povo indígena, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, oprimidos de toda a América Latina se unem para gritar contra os impérios do século 21: “Alto lá! Esta terra tem dono!”

27 de janeiro de 2015

Papa jesuíta aumenta interesse turístico por Missões no Sul do país

EFE | Isadora Camargo

A escolha do argentino Jorge Mario Bergoglio, um jesuíta, para papa revitalizou o interesse turístico nas ruínas das missões jesuíticas da fronteira entre Brasil e Argentina, que atraem olhares para a história e a cultura da relação entre indígenas e religiosos católicos.



A parte brasileira das missões jesuíticas é formada por sete cidades do estado do Rio Grande do Sul, entre elas São Miguel das Missões, declarada em 1983 Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.

Na busca de contato com a "energia religiosa", o sítio arqueológico de São Miguel das Missões recebe cerca de 80 mil visitantes por ano que vão conhecer as ruínas dos povoados construídos pelos jesuítas portugueses e espanhóis e os originais guaranis em 1687.

"Há alguns anos a visita concentrava um público maior de estudantes devido ao contato com a história e a aprendizagem, mas com a indicação do papa Francisco, que é um jesuíta missionário, os grupos de famílias incrementaram o fluxo turístico", declarou à Agência Efe a secretária de Turismo da cidade, Izabel Ribas.

Ribas contou que a busca da "energia missionária" e os símbolos de fé são os principais motivos para a visita de famílias, que também pode incluir no passeio um encontro com rezadeiros missionários, que estão nos arredores do local e são conhecidos por replicar bençãos de seus antepassados guaranis.

"Destaco a paisagem mística de religiosidade que diferencia a região", disse a secretária, lembrando que é necessário promover um circuito turístico que inclua as missões argentinas, brasileiras e paraguaias.

São Miguel é o maior dos sete povoados jesuíticos brasileiros e chegou a registrar, em meados de século XVII, cerca de cinco mil habitantes vivendo em um regime comunitário.

Originalmente os europeus chamaram esse local missionário de São Miguel Arcanjo e, séculos depois, já como município do Rio Grande do Sul, foi incluída a palavra Missões, ao nome do santo padroeiro da cidade.

A entrada do sítio arqueológico impressiona pela magnitude e sofisticação que existiam nos séculos passados. No centro, a cruz missionária inspirada na cultura espanhola e as ruínas de 30 metros de altura da Catedral de São Miguel Arcanjo eternizam uma conexão com o passado das origens brasileiras.

A catedral foi a primeira obra missionária construída no local pelos guaranis, em 1735, com pedra de arenito, colunas inspiradas na cultura romana, que permite aos visitantes desfrutar das marcas históricas do lugar.

Da construção original, há vestígios do colégio, da casa dos padres e do cemitério. Além disso, o lugar conta com o maior arquivo brasileiro de esculturas religiosas feitas pelos indígenas ou usadas desde a Europa.

Estas heranças estão expostas no espaço "Museu das Missões", que foi projetado pelo urbanista Lúcio Costa como uma réplica das casas indígenas.

Após explorar as ruínas durante o dia, à noite é oferecido ao visitante o espetáculo de uma hora de duração "Som e Luz", que narra a história da região com as ruínas como palco.

O espaço, com arvoredos, também esconde vestígios da resistência dos índios nativos, principalmente durante a demarcação territorial entre Portugal e Espanha decidida no Tratado de Madri de 1750, que retirou a população guarani que vivia nessa região.

Sepé Tiaraju foi a figura principal da liderança guarani nesse período e muitas imagens dele podem ser vistas na cidade, lembrando o período de aniquilamento indígena e o sincretismo cultural.

"Este lugar é mágico. A defesa desta terra pelos indígenas representa uma dos mais fortes e belas histórias do Rio Grande do Sul e demonstra a força deste povo, o orgulho de sua origem e de sua terra", afirma a estudante brasileira Juliana Gomes.Além de São Miguel das Missões, o circuito oeste do Rio Grande do Sul é formado por outros seis povoados missionários que também abriram os braços ao turismo, como São Francisco de Borja, São Nicolau, São Lourenço Mártir, São João Batista, São Luiz Gonzaga e Santo Angelo Custódio.